Junho 20, 2024
Destaques Portugal

Bordalo II e o ‘medicamento’ na campa de Salazar

O artista Bordalo II colocou uma caixa de medicamentos gigante, com a inscrição “Liberdade. Probiótico antifascista”, em cima da campa de Oliveira Salazar (1889 -1970), no cemitério do Vimieiro, concelho de Santa Comba Dão.

“A liberdade é fundamental para cada um de nós e para o bem-estar de todos”, defende o artista numa publicação feita hoje de manhã na rede social Instagram, na qual mostra fotografias da instalação artística e um vídeo do momento em que ela foi transportada para a campa do antigo ditador.

António de Oliveira Salazar, figura maior da ditadura do Estado Novo, nasceu a 28 de abril de 1889 no Vimieiro (distrito de Viseu). Morreu a 27 de julho de 1970, quase dois anos após uma queda que lhe provocou um derrame cerebral e o afastou da presidência do Governo.

Na caixa vermelha e branca, que tem desenhado um cravo vermelho, pode também ler-se que o “probiótico antifascista” é disponibilizado em 50 cápsulas de 25 mg, numa alusão aos 50 anos do 25 de Abril de 1974, que se comemoram na quinta-feira. “Por algum motivo, os que têm ambições tirânicas e antidemocráticas começam exatamente por atacar a liberdade – este conceito complexo que atravessa vários campos da nossa vida e sem o qual não teremos uma sociedade justa”, argumenta Bordalo II na publicação do Instagram.

E porque “a liberdade é fundamental”, o artista deixa um aviso: “Não nos podemos distrair e tomar a liberdade como um bem adquirido. Pelo contrário, temos que defendê-la e exercitá-la todos os dias. O 25 de Abril serve também para nos lembrarmos disto”.

Bordalo II acrescenta que “defender a liberdade é respeitar as diferenças, exigir direitos fundamentais universais e permitir a expressão do pensamento livre e da criatividade”. “Também a arte deve ser livre, deve poder questionar, provocar e dar um ponto de partida para a reflexão”, defende o artista, que termina com a frase “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais.”

Artur Bordalo (Bordalo II – o primeiro era o avô, o artista plástico Real Bordalo), nascido em Lisboa em 1987, começou pelo ‘graffiti’, que o preparou para o trabalho pelo qual se tornou conhecido: esculturas feitas com recurso a lixo e desperdícios.

A intervenção política e social tem marcado os seus trabalhos, abordando temas que vão de questões ambientais aos abusos sexuais na igreja.

Em agosto do ano passado, durante a Jornada Mundial da Juventude, estendeu uma “passadeira da vergonha”, composta por representações de notas de 500 euros, no palco-altar no Parque Tejo, em Lisboa, numa crítica aos “milhões do dinheiro público” investidos. A instalação tomou o nome de “Walk of Shame”.

Recentemente, o artista pintou a bandeira da Palestina numa escadaria de uma estação de comboios de Lisboa, num trabalho batizado de “Guilty steps”.

Em dezembro, apresentou em Macau um panda de 6,5 metros, feito de resíduos, na antiga fábrica de panchões do território, onde voltou a chamar a atenção para a contínua produção de lixo e destruição do planeta.

Em março do ano passado, expôs em São Paulo, cerca de 40 obras inéditas, na exposição “Bicho Homem”, a primeira que faz em solo brasileiro.

Em Portugal, é possível ver-se animais criados por Bordalo II em cidades como Lisboa, Estarreja, Loures, Vila Nova de Gaia, Faro, Coimbra, Águeda e Covilhã.

Deixe o seu comentário

  • Como avalia o artigo?
X