Junho 20, 2024
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João Sousa despediu-se definitivamente do ténis

João Sousa despediu-se definitivamente do ténis profissional com uma derrota na primeira ronda de pares do Estoril Open, ao lado do brasileiro João Fonseca, frente à dupla Marcelo Demoliner e Sem Verbeek.

Menos de uma hora depois de ter encerrado a sua carreira em singulares com uma derrota na primeira ronda frente ao jovem francês Arthur Fils, o vimaranense voltou ao court para disputar o programado encontro de pares frente ao brasileiro Marcelo Demoliner e ao neerlandês Sem Verbeek, que se impuseram por 6-4, 4-6 e 10-5, em uma hora e 24 minutos.

Com a programação do único torneio ATP português a colocar o encontro de pares inexplicavelmente após o emocionante encontro de singulares, em que o próprio João Sousa declarou o fim da carreira, o português de 35 anos acabou por despedir-se definitivamente no court Cascais, perante umas bancadas bem mais despidas e ao lado do jovem brasileiro João Fonseca, com quem nunca tinha jogado anteriormente.

João Sousa já é um “jogador reformado”, mas ainda sem planos de futuro

João Sousa iniciou a sua vida de “jogador reformado” sem planos de futuro, mas realizado com a carreira que hoje terminou no Estoril Open em ténis e da qual se despede de “consciência tranquila”. “De jogador reformado, é isso?”, brincou o melhor tenista de sempre ao ser questionado como se sentia na sua nova condição, antes de prosseguir: “É especial”.

“Hoje é um dia especial pelo momento, obviamente, não pela derrota, mas também era um bocadinho expectável. Acho que, apesar de não estar nas melhores condições físicas, dei tudo nos últimos tempos para estar a 100% aqui. E, apesar de tudo, acho que não fiz um mau encontro. Eu acho que é muito mérito do Arthur [Fils], que acho que fez um excelente encontro”, avaliou o português, referindo-se à derrota por 7-5 e 6-4 diante do francês, na primeira ronda do Estoril Open.

Sousa assumiu que só percebeu que estava perto do fim quando enfrentou o ‘match point’, ou mais precisamente nesse derradeiro jogo, quando olhou para a sua ‘box’ e viu as pessoas que o acompanhavam, nomeadamente o treinador Frederico Marques, emocionadas. “Foi aí que percebi que o fim estava próximo. É o que é”, pontuou.

Na sala de imprensa, o vimaranense de 35 anos confessou, visivelmente descontraído, que eram muitas as memórias que, naquele momento, lhe passavam pela cabeça, dos “muitos momentos” passados no Clube de Ténis do Estoril, onde se sagrou campeão em 2018.

“Não é um momento de tristeza, é um momento de alegria, porque acho que, independentemente de tudo, sempre dei o meu melhor. Estou de consciência tranquila. As pessoas, às vezes, perguntam-me acerca disso. Eu estou de consciência tranquila. Dei o meu melhor sempre para ser melhor jogador, para tentar alcançar os meus objetivos. E, como digo, independentemente da derrota, obviamente gostaria de ter dado vitórias aos portugueses, mas não foi possível. E, portanto, tenho que aceitar isso com naturalidade”, disse.

O melhor tenista português de sempre recordou os “muitos anos de desgaste, não só físico, mas também mental”, além dos muitos momentos duros que viveu numa modalidade que é uma “forma de viver”. “Não é um desporto. Nós temos que viver o ténis. E foram muitos anos dedicados a isso, à alta competição, ao ténis, a querer ser melhor. E, portanto, segue-se um período de reflexão bastante profunda, de tentar descansar também desta alta roda e da competição, que acho que é importante. Mas acredito que outros capítulos virão, certamente relacionados com o ténis”, disse.

Um deles pode ser tornar-se selecionador de Portugal, uma hipótese sobre a qual ainda não tinha pensado, mas que pareceu agradar-lhe. “Boa pergunta. Primeiro de tudo, já temos um capitão [Rui Machado] e acho que tem feito um excelente trabalho. E eu, futuramente, sim, eu acho que seria algo que eu poderia fazer, por que não? A Taça Davis é uma competição que me diz muito […]. Sempre que fui convocado, nunca falhei uma única eliminatória da Taça Davis e realmente sinto que não existe maior honra do que representar o nosso país na maior das competições que existe a nível de países e vivi muito intensamente a Taça Davis”, lembrou.

Recordista de internacionalizações (33) por Portugal, Sousa, que acabou muitas delas “destruído”, concedeu que, para si, seria um bom plano de futuro. “Se eu for convidado a fazê-lo, acredito que seria uma boa opção. Não sei se seria uma boa opção, mas, pelo menos, para mim, faria sentido”, disparou, provocando risos na sala.

Já com a carreira encerrada e com a perspetiva de passar uma quinta-feira ‘desligado’ finalmente do ténis – “O Frederico [Marques] queria que eu treinasse às 10:00 da manhã, mas isso não vai acontecer” -, na companhia das pessoas que sempre o acompanharam, o agora retirado tenista português resumiu o seu sentimento: “Eu não diria aliviado, eu diria realizado”.

“A palavra é um bocadinho mais adequada a esse momento. Acho que é realizado. Sinto-me realizado. O ténis é um desporto muito exigente. A competição todas as semanas, aquele nervosismo miudinho antes da competição. É difícil de gerir. E saber que não o vou ter, não sei se vou sentir falta disso ou não, mas, neste momento, também me senti aliviado”, admitiu.

Como o ‘conquistador’ João Sousa protagonizou a era mais dourada do ténis nacional

O ‘conquistador’ João Sousa colocou um ponto final na era mais dourada do ténis nacional, na qual, à base de uma garra e profissionalismo impares, foi pioneiro em quase tudo e, durante anos, se bateu com lendas mundiais.

Há 32 anos, quando brincava com uma raqueta quase do tamanho dos seus três anos, enquanto o pai e tenista amador Armando Marinho de Sousa jogava no Clube de Ténis de Guimarães, era impossível prever a missão e os feitos históricos que estavam reservados ao então petiz João Sousa, o mais velho de dois irmãos.

O ténis passou a fazer parte regular da vida do vimaranense aos sete anos e o primeiro título surgiu com a vitória no Campeonato Nacional de sub-12, ao bater na final Gastão Elias. Desde então, os triunfos sucederam-se amiúde e a paixão pela modalidade levou-o a convencer o pai, juiz de profissão, e a mãe Adelaide a permitir a mudança, aos 15 anos, para a BTT Tennis Academy, em Barcelona.

Cumprindo a sua parte no compromisso com os pais, de não descurar os estudos na Catalunha, Sousa evoluiu igualmente enquanto tenista na escola espanhola, onde conheceu o também português Frederico Marques, que viria a tornar-se num dos grandes amigos e, mais tarde, seu treinador de sempre.

Depois de ter optado pelo ténis em detrimento do futebol, modalidade que chegou a praticar no Vitória de Guimarães até aos 14 anos, e de um curso de medicina, área em que ambicionava formar-se, ‘Joey’ tornou-se profissional das raquetas em 2007, seguindo o exemplo do seu ídolo de infância, o espanhol Juan Carlos Ferrero.

Em 17 anos, o poliglota português (além da língua materna, fala inglês, francês, castelhano, catalão e italiano) somou conquistas atrás de conquistas e escreveu história sem par no ténis nacional – um historial, que juntamente com as suas origens, lhe valeu o cognome de ‘conquistador’.

A 15 de outubro de 2012, entrou pela primeira vez no ‘top 100’ do ranking ATP e por lá se manteve durante 403 semanas. Ininterruptamente, foram quase oito anos (339 semanas) entre os 100 melhores do mundo, algo jamais alcançado por um tenista português.

Conquistou quatro títulos ATP em 12 finais disputadas (Kuala Lumpur em 2013, Valência em 2015, Estoril Open em 2018 e Pune em 2022) -, o mais importante no Clube de Ténis do Estoril, onde se tornou no primeiro campeão português do torneio -, representou Portugal duas vezes nos Jogos Olímpicos (Rio2016 e Toquio2020), também algo inédito, teve 33 internacionalizações por Portugal na Taça Davis e atingiu o 28.º lugar no ‘ranking’ ATP, em maio de 2016.

Alicerçado no seu espírito de sacrifício, guerreiro e eloquente, marcou presença, durante anos a fio, em todos os Masters 1.000 e torneios do Grand Slam, tendo como melhor resultado os oitavos de final no Open dos Estados Unidos em 2018 e em Wimbledon em 2019, ano em que sofreu as primeiras contrariedades físicas graves.

Uma fissura no pé esquerdo obrigou-o a terminar precocemente essa temporada, antes da pandemia da covid-19 ter marcado mais um ano difícil para o vimaranense, que contraiu uma tendinite no braço direito no torneio de Antuérpia e que o levou a colocar, pelo segundo ano consecutivo, um ponto final na época antes do previsto.

O quarto título ATP na Índia em 2022, numa final disputada em três ‘sets’ com o finlandês Emil Ruusuvuori, ainda revigorou João Sousa, mas a esperança de voltar a exibir-se ao mais alto nível foi novamente contrariada por problemas físicos, nomeadamente nas costas.

Apesar do ‘calvário’ de lesões nos últimos anos, o sempre combativo – às vezes, até explosivo –, e educado Sousa jamais deixou de acreditar, nunca baixou os braços, nem a intensidade no trabalho dedicado para tentar ser o melhor dentro de um ‘court’ de ténis, onde chegou a defrontar os lendários Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic, número um mundial, entre muitas outras estrelas do ténis mundial.

Aos 35 anos, encerrou hoje a carreira profissional em singulares ao mais alto nível, depois de se ter tornado num exemplo para várias gerações e ter aberto as portas aos jovens tenistas portugueses, que ao longo dos anos foi acolhendo enquanto timoneiro da seleção nacional da Taça Davis. O legado ímpar, esse, foi criado por quem sempre acreditou e lutou, o ‘conquistador’ João Sousa.

Nome: JOÃO Pedro Coelho Marinho de SOUSA.

Data de nascimento: 30 de março de 1989 (35 anos).

Naturalidade: Guimarães.

Altura: 1,85 metros.

Peso: 74 quilos.

Profissional desde 2007.

Treinador: Frederico Marques.

Melhor ranking. 28.º (16 de maio de 2016).

Entrada no top 100: 15 de outubro de 2012.

Semanas no top 100: 403 (339 consecutivas).

Títulos ATP: 4 (em 12 finais).

Títulos challenger: 5 (em 10 finais).

Presença em torneios do Grand Slam: 38.

Melhor resultado em Grand Slams: Oitavos de final no Open dos Estados Unidos (2018) e em Wimbledon (2019).

Presença em Jogos Olímpicos: 2 (Rio2016 e Tóquio2020).

Internacionalizações por Portugal na Taça Davis: 33.

Principais resultados: Títulos ATP conquistados: Kuala Lumpur (2013), Valência (2015), Estoril Open (2018) e Pune (2022).

– 2023: Finalista do challenger do Porto.

– 2022: Vencedor do torneio de Pune. Finalista do torneio de Genebra. Quarto-finalista do torneio de pares do Open dos Estados Unidos.

– 2021: Finalista do challenger de Brest. Finalista do challenger de Helsínquia.

– 2019: Semifinalista do torneio de pares do Open da Austrália. 4.ª ronda de Wimbledon. 3.ª ronda do Open da Austrália.

– 2018: Vencedor do Estoril Open. Finalista do torneio de pares do Masters 1.000 de Roma. 4.ª ronda do US Open.

– 2017: Finalista do torneio de Kitzbühel. Semifinalista do torneio de São Paulo.

– 2016: Semifinalista do torneio de Nice. Quarto-finalista do Masters 1.000 de Madrid. 3.ª ronda do Open da Austrália. 3.ª ronda de Wimbledon. Nono lugar no torneio de pares Rio2016. 17.º lugar no torneio de singulares Rio2016.

– 2015 Vencedor do torneio de Valência. 3.ª ronda do Open da Austrália.

– 2014 Finalista do torneio de Metz.

– 2013 Vencedor do torneio de Kuala Lumpur. 3.ª ronda US Open.

FONTE: LUSA

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